sábado, 22 de abril de 2006

No lotação

"Levantei-me com o pé esquerdo naquele dia. Tudo dera errado: o despertador atrasou, o chuveiro queimou, derramei meu café na minha blusa, o carro não funcionou. Então, fui obrigada a ir de ônibus para o escritório, que é a coisa mais deprimente deste mundo, mas se quiser sentir calor humano, esse é o local mais apropriado. Sabia que iria chegar atrasada, pois o motorista não tinha pressa, só eu.

Ainda bem que o ônibus não estava lotado e pude sentar-me. Estava aborrecida, irritada. Tentei cochilar e estava quase conseguindo, quando ouvi uma conversa que me deixou arrepiada:

- Por que será que ela fez isso? - idsse um homem que estava atrás de mim.

- Eu não sei... Mas trair-lhe com seu melhor amigo, fazê-lo de idiota... Essa eu não deixava... Mataria a esposa e o amigo - disse o outro homem, com uma voz extremamente rouca. - Eu a deixaria trancada em casa, arrancaria suas unhas, cortava seus longos cabelos... o quê é que você acha, Carlos?

- Será? Não é muita ruindade para uma pessoa só, Marcos?

- Xiiii... Fica quieto... Não fale o meu nome aqui... já pensou se soubessem? - sussurrou Marcos - Bom, acho que irei colocar isso no plano.

Os dois começaram a conversar amenidades, mas eu fiquei pasma! Tramando um assassinato aqui, dentro de um ônibus, onde qualquer um poderia escutar, como eu escutei! E ainda numa frieza incrível! Ah, não, essa eu não deixo... Irei ao primeiro posto policial fazer uma denúncia. Mas... e se pedirem um retrato falado? Nem vi o rosto deles ainda!...

Ainda estava perdida nos meus pensamentos, quando Marcos, aquele da voz rouca, disse:

- Será que é um bom tema para o meu mais novo livro policial? Será que irá agradar ao público?

Carlos respondeu:

- Acho que sim, pois a história é de arrepiar e parece até convincente, viu? Tá bom pra caramba, sô!

- Obrigado - agradeceu Marcos.

Então não era o que eu pensava! Ele era um escritor policial e eu pensando que era um assassinato! Eu preciso conter meus pensamentos, pois tenho uma imaginação fértil demais.... Preciso tomar cuidado com tudo que ouço por aí! Porém, até que um dia, em outro ônibus:

- Você acha que eu devo estrangular, esquartejar ou decapitar?"

**Redigido por mim em Maio/Junho de 1989.

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